POR QUE AS ESTRELAS DE HOLLYWOOD APLICAM BOTOX NOS PÉS?
- Gisele Barros

- 24 de mar. de 2025
- 5 min de leitura
Para ter conforto no Louboutin, Nicole Kidman está entre as famosas que fizeram uso do neuromodulador nos pés. Há três benefícios em aplicar toxina botulínica na região: maior conforto ao usar salto, tratamento de fascite plantar e controle do suor que, na área, pode ter consequências indesejáveis.

Para uma celebridade de Hollywood, estar impecável no tapete vermelho tem seu preço: em eventos e premiações, as aparições de salto alto podem causar sérios danos aos pés. Mas, agora, algumas encontraram a solução para o problema em um velho conhecido do rosto: a toxina botulínica. O procedimento foi apelidado na imprensa americana de "lifting de estilete" ou "Loub Job", em homenagem aos sapatos Christian Louboutin. A atriz Nicole Kidman, por exemplo, está entre as pessoas que já experimentaram a aplicação. Conforto, tratamento da fascite plantar (uma inflamação da fáscia plantar, um tecido que liga o calcanhar aos dedos do pé) e a diminuição da sudorese excessiva estão entre os benefícios. “Para o suor, a aplicação é realizada por toda a planta do pé. As pessoas que suam mais nos pés sofrem de hiperidrose nos pés, uma condição em que a transpiração é grande até mesmo em repouso ou em temperaturas mais amenas”, acrescenta a dermatologista Dra. Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. “No tratamento da fascite plantar e para promover mais conforto usando salto, a toxina botulínica é aplicada por infiltração (injeção) diretamente na musculatura da panturrilha, principalmente no músculo gastrocnêmio (mais frequentemente) ou no músculo sóleo, para aliviar a tensão no tendão de Aquiles, reduzindo a sobrecarga da fáscia plantar, sendo guiada por ultrassonografia, garantindo assim segurança ao procedimento”, diz o Dr. Fernando Jorge, ortopedista especialista em Intervenção em Dor (Hospital Albert Einstein) e em Medicina Intervencionista em Dor (Faculdade de Medicina da USP - Ribeirão Preto).
Começando pelo benefício no tratamento da transpiração, a dermatologista Dra. Paola explica que o suor em excesso nessa região não causa somente um incômodo estético, mas pode favorecer infecção fúngica e bacteriana secundária, já que ambientes úmidos e quentes são propícios para proliferação de fungos e bactérias. “Além disso, o suor em excesso pode fazer o pé ‘escorregar’ em calçados e, com isso, causar calos, bolhas e feridas. A paciente ainda pode ter dificuldade para andar de salto ou sandália ‘de dedo’, causando constrangimento e podendo afetar com frequência a autoestima”, diz a Dra. Paola Pomerantzeff. “Essa é uma aplicação muito comum. É rápida e muito eficaz. Como existe o desconforto por ser uma área sensível (planta do pé), então, usamos anestesia tópica, “vibrador” e gelo, tudo para tornar a aplicação o mais confortável possível”, diz a médica. “Mas, antes de aplicar a toxina botulínica, podemos (e devemos) fazer um teste, que é o teste de Minor. Ele é feito com iodo e amido. Aplica-se a solução de iodo na região afetada e depois, polvilha-se o amido por cima. As áreas afetadas pela hiperidrose ficam com uma coloração azul escura. Esse teste ajuda muito para aplicarmos a toxina exatamente nas áreas afetadas. Dias após a aplicação, se repetirmos o teste, as mesmas áreas não ficarão escuras! Esse teste é importante, porque na grande maioria das pessoas afetadas, a região acometida em um pé é diferente do outro pé. E o ideal é aplicar a toxina em todo pé sem aplicar em áreas não acometidas”, completa a Dra. Paola.
A indicação de propiciar mais conforto com alguns calçados é justamente para mulheres que costumam usar saltos mais altos e com mais frequência, segundo o Dr. Fernando Jorge. “A toxina botulínica ajuda a relaxar a musculatura da panturrilha e a reduzir a sensação de tensão no arco plantar e no tendão de Aquiles. Isso diminui o cansaço e a dor nos pés, comuns após o uso prolongado de sapatos de salto”, explica o médico. “Ao reduzir a tensão nos músculos e tendões, o tratamento pode minimizar a pressão excessiva sobre determinadas áreas do pé, o que, por sua vez, pode retardar a formação de calosidades e reduzir a progressão de joanetes em estágios iniciais”, destaca o ortopedista. A aplicação do neuromodulador não é um passe livre para o uso do salto alto: “O tratamento alivia os sintomas, mas não elimina os efeitos negativos do uso excessivo desse calçado. O ideal é alternar o uso com calçados mais confortáveis e realizar fortalecimentos e alongamentos diários para a musculatura da panturrilha, deixando o salto alto para ocasiões especiais”, completa o Dr. Fernando.
Mulheres que usam salto com frequência também podem desenvolver fascite plantar. “O uso de salto altera a biomecânica da marcha e sobrecarrega a região anterior do pé, principalmente a cabeça dos ossos metatarsos e do arco plantar, o que pode resultar em microtraumas repetitivos e, eventualmente, inflamação, dor forte e limitação funcional! Embora o salto alto não seja a única causa, ele é um fator de risco importante, especialmente quando combinado com pé plano (chato) ou hipertonia da musculatura da panturrilha”, explica o médico. “A toxina botulínica é uma alternativa terapêutica promissora no tratamento de fascite plantar, especialmente em casos resistentes às abordagens convencionais. A toxina botulínica atua promovendo o relaxamento muscular e reduzindo a tensão sobre a fáscia plantar. Ela bloqueia a liberação de uma substância produzida pelo nosso organismo chamada acetilcolina (neurotransmissor que está presente no sistema nervoso central e periférico) diminuindo a contração muscular e proporcionando um efeito de relaxamento temporário. Com isso, reduz a tração excessiva na fáscia plantar, aliviando a dor e facilitando a recuperação”, diz o Dr. Fernando.
Seja para qual for a finalidade, o tratamento deve ser repetido após algum tempo. “Para o suor, vemos uma melhora geralmente três dias após a aplicação no paciente. O ideal é que o procedimento seja realizado a cada seis a nove meses. Varia bastante de paciente para paciente. A maioria faz uma aplicação ao ano”, explica a Dra. Paola Pomerantzeff. E é um mito que haja uma compensação em outra área do corpo. “A hiperidrose compensatória é um efeito adverso comum da simpatectomia torácica (cirurgia onde é feito “corte do nervo” que inerva as glândulas que estão hiperfuncionantes causando a hiperidrose). Após esse procedimento, pode ocorrer excesso de sudorese em áreas que não ocorriam antes. Com a toxina botulínica, isso não ocorre, pois ela bloqueia a ação da glândula no local e não através do SNC (simpatectomia)”, explica a dermatologista. “No caso da fascite plantar e para ter mais conforto usando salto alto, a aplicação pode ser repetida de três a seis meses, dependendo da resposta ao tratamento e da evolução dos sintomas. Vale destacar que a toxina botulínica é uma opção segura e eficaz, principalmente para pacientes que não responderam bem a tratamentos convencionais. Ele pode oferecer uma alternativa menos invasiva antes de se considerar a cirurgia”, finaliza o Dr. Fernando Jorge.
FONTES:
*DR. FERNANDO JORGE: Médico ortopedista, especialista em cirurgias do Joelho e cirurgias do Quadril (HSL-RP), em Medicina Regenerativa (Orthoregen-BR/USA), em Intervenção em Dor (Hospital Albert Einstein) e em Medicina Intervencionista em Dor (Faculdade de Medicina da USP - Ribeirão Preto). Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), da Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionista da Dor (SOBRAMID), da Associação Brasileira de Medicina Regenerativa (ABRM), da Sociedade Americana de Medicina Regenerativa (ASRM) e do Conselho Americano de Medicina Regenerativa. Especialista em Tratamento Médico por Terapia por Ondas de Choque e membro da SMBTOC (Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque). Além disso, é membro efetivo da SBED (Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor) e Mestre em Biomecânica do aparelho locomotor (BIOENGENHARIA) pela Faculdade de Medicina da USP. Professor, palestrante e mentor nas áreas em que atua. @dr.fernandojorge
*DRA. PAOLA POMERANTZEFF: Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), tem mais de 10 anos de atuação em Dermatologia Clínica. Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina Santo Amaro, a médica é especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, e participa periodicamente de Congressos, Jornadas e Simpósios nacionais e internacionais. Instagram: @drapaoladermatologista
Por,
Gisele Barros
Editora Chefe do Portal ALL SENSEZ
Especialista no Mercado de Fragrâncias
Consultora de Comunicação Especializada em Perfumaria












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