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Quando o perfume ganha textura: Nicolas Beaulieu aposta em uma perfumaria mais sensorial e sem fronteiras

23 de jun.
4 min de leitura

Recém-nomeado VP Senior Perfumer da Symrise Fine Fragrance, o perfumista defende uma perfumaria capaz de conectar memória, sensorialidade e inovação para moldar os desejos do futuro.


Nicolas Beaulieu

O que torna uma fragrância memorável? Para Nicolas Beaulieu, a resposta talvez esteja menos nas categorias tradicionais da perfumaria e mais na forma como os sentidos se encontram. Durante sua passagem pelo Brasil, o perfumista apresentou uma série de acordes experimentais que desafiam convenções estabelecidas, explorando territórios que transitam entre o olfato, o paladar e até mesmo a percepção tátil.


Em um momento em que consumidores buscam experiências cada vez mais imersivas e emocionais, Beaulieu defende uma perfumaria capaz de despertar sensações complexas, indo além das famílias olfativas clássicas. Texturas, memórias, referências gustativas e matérias-primas inesperadas passam a ocupar um papel central na construção de fragrâncias que não apenas perfumam, mas contam histórias e provocam emoções.


Na entrevista a seguir, o perfumista compartilha sua visão sobre o futuro da criação olfativa, o papel da experimentação na indústria, a influência das experiências pessoais no processo criativo e os caminhos que podem definir a próxima geração da perfumaria.


ENTREVISTA | NICOLAS BEAULIEU


Durante sua visita ao Brasil, você apresentou acordes que atravessam o território tradicional da perfumaria, como referências umami e quase gustativas. Estamos caminhando para uma perfumaria mais sensorial e menos categórica?


Parece-me que os consumidores estão buscando cada vez mais experiências sensoriais, e a perfumaria não é exceção. Por isso, integrar essa dimensão sensorial desde a concepção da fragrância é uma excelente forma de despertar emoções intensas.


O uso de matérias-primas inesperadas, como o acorde construído a partir de cogumelos (Yellow Boletus), desafia códigos clássicos. O que define hoje a fronteira entre o estranho e o desejável na perfumaria?


Inicialmente, uma matéria-prima “inesperada” é apenas algo que ainda não foi usada, até que, de repente, passe a fazer parte do vocabulário olfativo comum. Para um perfumista, introduzir um novo ingrediente ou reinterpretar um ingrediente familiar por meio de um acorde incomum ou de uma overdose é um dos maiores gatilhos para a criatividade.


Quando Ernest Beaux elevou os aldeídos a níveis inéditos em Chanel Nº 5, em 1921, aquilo foi um gesto radical. Hoje, florais aldeídicos parecem quase vintage. Esse deslocamento constante, do choque ao clássico, é justamente o ritmo da criação na perfumaria.


Muitos dos seus acordes nascem de memórias pessoais, infância, trajetória, experiências. Você acredita que o futuro da perfumaria será mais autobiográfico do que guiado por tendências de mercado?


Não. Acredito que a maioria das fragrâncias seja resultado de um equilíbrio delicado entre a visão do diretor criativo da marca, ou da equipe de marketing, e a sensibilidade do perfumista. Esse diálogo existe desde o início da relação entre perfumistas e estilistas.


Dito isso, muitas marcas de nicho oferecem hoje mais espaço para expressão pessoal dos perfumistas, o que traz algo realmente refrescante e criativamente estimulante para a indústria.


Mais do que notas, você apresentou a ideia de textura, algo quase tátil dentro do olfato. Essa é uma nova maneira de pensar a construção de fragrâncias?


Sempre fui fascinado por brincar com os sentidos para provocar emoção olfativa. A textura, quase tátil por natureza, é especialmente poderosa e ainda pouco explorada… então, por que não levá-la ainda mais longe?


Sua trajetória começou na perfumaria funcional e hoje conecta-se à perfumaria de prestígio. Essa transição revela uma dissolução das fronteiras entre esses universos?


É verdade que, há 20 anos, migrar da perfumaria funcional para a alta perfumaria era algo incomum, talvez eu tenha sido um pouco pioneiro.


Mas, no fim, as pessoas que usam nossas fragrâncias são as mesmas que utilizam produtos perfumados para o corpo e para a casa. Essa visão mais ampla e holística é extremamente inspiradora, e também ajuda a manter a humildade.


Os acordes apresentados durante sua passagem pelo Brasil funcionam quase como “blocos construtores” para futuras fragrâncias. O futuro da perfumaria será mais modular, experimental e aberto ou continuará dependente de grandes narrativas clássicas?


O futuro da perfumaria está justamente nessa tensão. A criação modular traz liberdade, velocidade e infinitas possibilidades de experimentação, mas, sem narrativa, permanece abstrata.


O verdadeiro desafio é transformar esses blocos construtores em algo que as pessoas possam sentir e com o qual possam se conectar. Porque, no fim, perfumaria não é apenas composição, é criação de emoção.


Existe o risco de a perfumaria contemporânea se tornar “conceitual demais” para o consumidor ou você acredita que o público está pronto para um novo nível de sofisticação olfativa?


Acredito que o público atual esteja absolutamente pronto para um novo nível de sofisticação olfativa, desde que ela permaneça emocionalmente relevante.


O futuro da perfumaria pertencerá às criações que equilibrem experimentação e humanidade: fragrâncias que explorem novos territórios criativos, mas que continuem humanas, conectadas e profundamente sentidas.


Ao apresentar acordes tão autorais, conectados à sua trajetória pessoal, existe também a intenção de influenciar a direção criativa das marcas? Como a Symrise atua hoje: respondendo briefings ou ajudando a definir o que será desejável no futuro?


Na Symrise, acreditamos que fragrâncias não devem apenas responder ao desejo, elas devem moldá-lo.


Acordes autorais conectados a trajetórias pessoais funcionam como sinais culturais: introduzem novas emoções, estéticas e perspectivas olfativas capazes de inspirar marcas para além das tendências existentes.


Nossa intenção não é simplesmente seguir o mercado, mas expandir aquilo que se torna desejável.


Hoje, a Symrise atua tanto como parceira estratégica que responde a briefings quanto como uma casa de fragrâncias iconoclasta, ajudando a definir futuros territórios criativos antes mesmo de o briefing existir.


Por meio de inteligência cultural, inovação em ingredientes e storytelling, colaboramos com marcas para criar não apenas fragrâncias, mas novas narrativas emocionais para o futuro.


Uma perfumaria que se sente antes de ser explicada


Ao longo da conversa, Nicolas Beaulieu revela uma visão de perfumaria que ultrapassa a simples combinação de notas e ingredientes. Em seu entendimento, o futuro da criação olfativa está na capacidade de provocar sensações, despertar memórias e construir experiências que dialoguem com múltiplos sentidos.


Entre texturas, referências gustativas, ingredientes inesperados e novas formas de narrar emoções, a perfumaria contemporânea parece caminhar para um território mais aberto, experimental e humano. Um espaço onde inovação e sensibilidade deixam de ser opostos para se tornarem complementares, e onde o perfume passa a ser sentido muito antes de ser definido.




Por,

Gisele Barros

Editora Chefe do Portal ALL SENSEZ

Especialista no Mercado de Fragrâncias

Consultora de Comunicação Especializada em Perfumaria


Gisele Barros - Editora Chefe do Portal ALL SENSEZ





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