Loiro de tinta ganha força e reacende debate sobre clareamento
- Gisele Barros

- há 7 horas
- 5 min de leitura
A tendência que viralizou nas redes coloca a colorimetria no centro da escolha entre coloração permanente e descoloração.

Depois de uma longa temporada marcada por mechas contrastantes, platinados e efeitos de iluminação, o cabelo loiro começa a revelar outra preferência estética: menos contraste, mais uniformidade e uma luminosidade que procura se aproximar da aparência de um fio naturalmente saudável. É nesse movimento que o chamado “loiro de tinta” ganhou espaço nas redes sociais, resgatando uma estética clássica associada às WAGs, sigla em inglês para wives and girlfriends, usada para se referir às esposas e namoradas de jogadores de futebol, e a influenciadoras que apostam em cabelos de aparência mais natural.
A popularização do visual, porém, traz uma questão que vai além da tendência: afinal, quando uma coloração consegue clarear os fios e quando a descoloração continua sendo necessária? A resposta passa menos pela escolha de uma tonalidade e mais pela compreensão da fibra capilar, da base natural e, sobretudo, da colorimetria.
Segundo o cabeleireiro e Keune Master Talent Marsel Meier, é justamente essa avaliação que determina o caminho mais adequado.
"O erro mais comum é acreditar que existe uma coloração capaz de deixar qualquer pessoa loira da mesma maneira. O resultado depende da base natural do cabelo, do histórico químico e do quanto essa fórmula consegue abrir o tom. É a colorimetria que determina se a coloração será suficiente ou se será preciso recorrer ao descolorante", explica.
O que está por trás do loiro de tinta
A estética que ganha força agora se distancia dos visuais com grande diferença entre raiz e comprimento. A proposta trabalha com tons mais quentes e neutros, buscando um resultado uniforme, luminoso e visualmente associado à saúde dos fios.
Para quem parte de uma base entre o loiro escuro e o castanho claro, alturas de tom entre 6 e 8, a coloração permanente pode ser uma alternativa. Nesses casos, a técnica costuma permitir a abertura de um a, no máximo, três tons sem a necessidade de recorrer ao descolorante.
Isso não significa, no entanto, que toda pessoa possa alcançar o mesmo resultado apenas com tinta. Em bases muito escuras, especialmente quando a intenção é chegar a um loiro muito claro, a capacidade de abertura da coloração encontra seus limites.
"Nem todo cabelo é candidato ao loiro de tinta. Em fios com base muito escura, principalmente quando o objetivo é chegar a um loiro muito claro, a tinta não consegue promover a abertura necessária. Insistir apenas na coloração pode resultar em reflexos alaranjados, manchas ou em uma cor diferente da desejada", justifica.
O histórico químico também entra nessa equação. Cabelos virgens ou com histórico compatível tendem a responder melhor ao clareamento realizado somente com coloração.
Quando a descoloração ainda é indispensável
A ascensão do loiro de tinta não elimina a função da descoloração. Há resultados em que a retirada de pigmentos continua sendo necessária, especialmente para alcançar tons como platinado, champagne, gelo ou perolado quando o ponto de partida é uma base castanha média, escura ou preta.
A mesma lógica se aplica aos fios que já receberam colorações escuras ou acobreadas. Como uma tinta não consegue clarear outro pigmento artificial presente no cabelo, o descolorante pode ser necessário para remover parte dessa cor e preparar a fibra para receber uma nova tonalidade.
Também é ele que permite construir determinados efeitos de dimensão e contraste presentes em técnicas como mechas, balayage, ombré hair e babylights.
A ideia, portanto, não é colocar coloração e descoloração em lados opostos. Cada procedimento responde a uma necessidade diferente.
"A descoloração não deve ser vista como a vilã do clareamento. Quando bem planejada e executada, ela é uma técnica segura para alcançar determinados tons de loiro e efeitos de iluminação. O mais importante é respeitar os limites do cabelo e definir a estratégia de clareamento de acordo com a estrutura dos fios e o resultado desejado", esclarece.
Dois caminhos diferentes para clarear
Embora tenham o mesmo objetivo geral, clarear o cabelo, coloração e descoloração atuam de maneiras distintas.
A coloração permanente consegue abrir alguns tons da cor natural e, simultaneamente, depositar pigmentos que ajudam a construir a tonalidade final. Já a descoloração remove uma quantidade muito maior dos pigmentos presentes na fibra, criando uma base mais clara para que, posteriormente, seja aplicada a tonalização desejada.
Essa diferença explica por que uma técnica não substitui automaticamente a outra.
"Hoje existem colorações que conseguem clarear bastante os fios, mas elas têm um limite. Quando o objetivo é conquistar um loiro muito claro ou platinado, o uso do descolorante é importante. Já para quem busca um loiro mais natural, uniforme e com aparência saudável, a coloração pode ser uma excelente alternativa, desde que o cabelo tenha uma cor base favorável", comenta.
A colorimetria como mapa do clareamento
É nesse ponto que a colorimetria deixa de ser apenas uma etapa técnica e passa a funcionar como uma espécie de mapa para a transformação. Cada cabelo possui uma base natural e, durante o clareamento, revela diferentes pigmentos internos, conhecidos como fundo de clareamento.
Ignorar essa característica ajuda a explicar por que a mesma coloração pode produzir resultados diferentes em pessoas distintas.
"Todo cabelo possui um fundo de pigmentação. Quando esse fator não é levado em consideração, o resultado dificilmente será o esperado. É por isso que duas pessoas podem usar a mesma coloração e obter cores completamente diferentes. Em cabelos mais escuros, por exemplo, costumam surgir primeiro os tons avermelhados e alaranjados. À medida que o processo avança, esses pigmentos dão lugar aos amarelados", afirma Marsel.
A coloração possui um limite de abertura. O descolorante, por sua vez, possibilita alcançar fundos mais claros antes da aplicação da nuance escolhida. É essa diferença que torna a avaliação da base tão importante para definir a estratégia de clareamento.
Loiro de tinta agride menos?
A associação entre loiro de tinta e menor agressão aos fios tem uma explicação: em comparação com a descoloração, a coloração tende a preservar uma quantidade maior da estrutura capilar. Isso, porém, não significa ausência de danos.
Toda transformação química modifica a fibra e exige cuidados antes e depois do procedimento. Por isso, para Marsel, a questão central não é simplesmente escolher entre tinta ou descolorante, mas identificar qual método é compatível com aquele cabelo e com o resultado pretendido.
"Mais importante do que escolher entre coloração ou descolorante é entender qual procedimento faz sentido para aquele cabelo. Em alguns casos, insistir apenas na coloração pode gerar um resultado irregular, enquanto um processo de descoloração planejado e bem executado oferece mais segurança e previsibilidade", destaca.
A avaliação profissional, nesse cenário, torna-se parte do próprio processo de transformação. Antes de decidir pela técnica, é preciso analisar até onde o cabelo consegue clarear, quais pigmentos serão revelados e qual procedimento oferece melhores condições para neutralizá-los.
"O cabeleireiro avalia até onde aquele cabelo consegue clarear. A partir desse diagnóstico, é possível selecionar o método ideal para neutralizar os pigmentos, alcançar uma cor mais equilibrada e, claro, evitar manchas e reflexos indesejados", finaliza o profissional.
Por que esse movimento importa agora?
O fenômeno do loiro de tinta mostra como a estética dos cabelos está se deslocando, neste momento, de uma lógica de transformação ostensiva para uma valorização de resultados mais uniformes, luminosos e associados à aparência de saúde. A tendência viraliza, mas sua execução continua dependendo de fundamentos técnicos que as redes sociais nem sempre conseguem traduzir: base natural, histórico químico, fundo de clareamento e limites da fibra.
Para o consumidor, a principal leitura é justamente essa: o visual pode parecer simples, mas o caminho até ele não é necessariamente. Para a indústria da beleza e para os profissionais de salão, a tendência reforça a importância de combinar desejo estético e conhecimento técnico, porque no cabelo, a experiência visual começa muito antes do resultado final.
Por,
Gisele Barros
Editora Chefe do Portal ALL SENSEZ
Especialista no Mercado de Fragrâncias
Consultora de Comunicação Especializada em Perfumaria

.png)
.png)